• O Grande Curso de Leitura Estática

    Em um dos mundos que imagino, cada pessoa tem direito a receber pelo tempo que é exposta a anúncios publicitários.

    Isso mesmo: se uma empresa deseja vender alguma coisa, que comece remunerando seu potencial cliente pelo quinhão de tempo que ele se digna a dedicar ao tal produto, a estudar se funciona, se o preço é justo, se atende a uma necessidade real. Não seriam mais do que algumas frações de centavo por cada segundo de anúncios diante da vista – centavos que somados, no final do mês, poderiam fazer a diferença no orçamento de muita gente, nesses tempos de crise. Uma espécie de anti-uber da publicidade.

    Mas nos mundos que idealizo, não é o homem que prioriza o dinheiro, e sim o dinheiro que prioriza o homem – por isso mesmo é que eles não existem. Neste mundo em que vivemos, encontro-me ultimamente na mira de anunciantes que atuam livremente na plataforma instagram. Minha timeline encontra-se neste momento sitiada por insidiosas propagandas, especialmente a de um videogame retrô, com dois joysticks e 40 mil jogos, e as de dois cursos: um que promete ensinar tudo sobre xadrez, e o outro, o famigerado “leia 600 palavras por minuto praticando apenas 15 minutos por dia”. Venho resistindo bravamente, mas sinto minha força mental sendo minada a cada dia: suspeito que todo anunciante de instagram tenha feito o curso do Lobo de Wallstreet, aquele do “me venda esta caneta.” Eles são bons, vendem qualquer tranqueira.

    Espera, qualquer tranqueira não. Nada pode ser mais tentador do que um curso de leitura dinâmica para quem passou os últimos quase quatro anos tendo pelo menos um bebê em casa, e metade desse tempo tendo dois. A pessoa já está se conformando de que nunca mais na vida vai conseguir ler meia página sem cair no sono, quando, do nada, aparece na timeline um careca vindo de marte prometendo devolver foco e concentração para você conseguir ler mais de 50 livros por ano, com apenas 3 semanas de curso, tudo 100% validado pela neurociência… é covardia.

    Ando com medo dos livros. Vivo cercado deles, quase todos comprados antes de as crianças nascerem. Eles se movem das prateleiras, empilhando-se em mesas e cabeceiras, escondendo-se em mochilas e gavetas, conforme a algazarra dos meninos ou meus múltiplos planos irrealizados de retomada de projetos sérios – literários, jornalísticos, historiográficos… todos naufragados no oceano da exaustão. Ninguém lê direito com a criançada subindo pelo pescoço, puxando os cabelos, colocando em risco a vida e o patrimônio. Sim, eles cochilam, mas que ânimo sobra para se aprofundar em qualquer coisa sabendo que dali a poucos minutos alguém vai acordar berrando por atenção ou por uma mamadeira? Sim, eles dormem à noite, mas qual cérebro ainda funciona depois de um dia inteiro sendo mascado por melodias de desenhos animados?

    Já me disseram que as crianças crescem e que tudo isso passa: resigno-me a acreditar nessa fábula, e tenho conseguido aproveitar com intensidade cada minuto de fofura. Mas não quero sair disso de mãos abanando. Estou anotando tudo para um dia anunciar no instagram o Grande Curso de Leitura Estática. Leve 600 minutos para ler 15 palavras: meia página por dia, e no outro dia, a mesma meia página. Perca a concentração e esqueça sem desespero. Adie planos e perca prazos sem se penitenciar, por vezes até celebrando isso. Lide decentemente com o medo de nunca mais voltar a ser produtivo, quanto menos criativo, nesta vida e nas próximas duas. Compense-se no tempo que resta chafurdando no noticiário esportivo, jogando no Cartola (não riam, ano passado ganhei 3 mil reais) e alugando amigos nos grupos do Whatsapp com reflexões baseadas em seu mais puro e leviano achismo.

    Aprenda, enfim, com o Grande Curso de Leitura Estática, a se divertir e ter paciência e dignidade com a vida nos momentos em que ela não te coloca em primeiro lugar. Será que isso vende?

    O curso de leitura dinâmica subiu no telhado. O xadrez terá seu momento, não é preciso ter pressa. O videogame… bem, com 40 mil jogos e dois joysticks, até que sai em conta. Esse eu vou deixar para avaliar quando o décimo-terceiro entrar.

  • Baby

    Disse outro dia a uma amiga, que há mais de dez anos não via, que meu repertório no violão continua o mesmo, as mesmas 10 ou 15 canções mal tocadas. Ela disse que já não lembra, que vai soar original se eu tocar.

    Uma dessas canções é Baby, composta por Caetano Veloso e eternizada na voz de Gal Costa, que nos deixou ontem.

    Que linda, que grande artista foi Gal. Artista quando morre aumenta, porque todo mundo que o ama fala dele ao mesmo tempo, como nunca havia falado enquanto ele estava vivo, já que não faria o menor sentido. E quem eventualmente não goste, em respeito, silencia e nos poupa de ruído.

    Gal é de uma geração de artistas imensamente importante para nosso país. Sem ter muito a acrescentar aos belos e informativos textos que venho lendo sobre ela desde ontem, queria só mesmo registrar que a morte de Gal como que principia a chegada de um tempo que sempre soube que chegaria, tanto quanto nunca soube como iria enfrentar: uma nova e vazia era deste país sem esse panteão luminoso: Gal, Bethânia, Caetano, Gil, Milton, Chico, enfim, há outros, mas acho que esses são os mais centrais.

    Não acompanho a cena musical (aliás, cena alguma) com a devida regularidade, mas nada que veio depois desse pessoal me toca tão definitivamente quanto a obra deles. Encontro ali escola, alimento, remédio para tudo. Suspeito que seja por uma pretensão a alcançar o universal – temático, semântico, sentimental, espiritual e musical – muito própria da geração deles, e que foi se esmaecendo, talvez pelo chamado da contemporaneidade ao aprofundamento nos temas, nos campos, nas técnicas, nas especialidades; mas sobretudo pelo fato de que esses grandes nomes já existiam, sendo portanto contraindicado a quem veio depois pretender imitá-los.

    Artistas assim como Gal me fazem pensar no que constitui um grande artista, em qual sua real necessidade, seja para as pessoas, seja para a sociedade.

    Às pessoas, acho que eles dão os instrumentos para sentir. Sim, porque sentir não é algo meramente abstrato ou interno à pessoa, requer toda uma materialidade. Ninguém festeja, ama, sofre ou sente saudade ‘por dentro’ e pronto: usamos para isso a arte feita pelos outros.

    À sociedade, os artistas oferecem talvez a cola que lhe possibilita a própria existência, já que sem eles seria impossível sentir em comum. Ninguém jamais soube explicar um sentimento em sua plenitude, mas todo mundo sabe que certas canções, certos artistas ajudam a gente a festejar, a amar, a sofrer, a sentir saudade, e principalmente a estimular e reconhecer esses sentimentos nas outras pessoas. É aquela coisa do “toca Bethânia, mostra que tu é intenso”.

    Do conjunto das grandes composições, podemos pinçar aquelas que se aplicam a mais de um momento, temática ou sentimento. São como que canções-curinga, que a gente canta em diversos momentos da vida, com finalidades diversas e mutáveis.

    Baby, para mim, é uma dessas canções-curinga. Confesso (sou inexplicavelmente desatento ao sentido de algumas letras que sei cantar de cor desde que me entendo por gente) que já amei tocando mal Baby, já ninei meus filhos tocando mal Baby e, atualmente, depois que descobri que Baby foi uma música que Caetano fez para a irmã, passei a tocar mal Baby para mitigar um pouco a saudade de minha irmã, que achou de viver na Austrália e em janeiro vai ter um baby. É, baby, há quanto tempo.

    Mas, retomando: como será viver em um mundo sem a presença desse pessoal que já viveu tudo e nos deu régua e compasso para sentir? E, mais aflitivo ainda: o que será das pessoas da minha idade daqui a 40 e poucos anos, quando esta minha geração e as mais novas equivaler à desses grandes artistas que já não se fabrica mais?

    Amigos já me alertaram quanto à possibilidade de estar mitificando excessivamente a geração de meus ídolos, e espero que eles estejam certos. Talvez os ídolos das próximas gerações já estejam aí brilhando, tocando, escrevendo, mas a verdade é que não dá para saber, ninguém pode prever o que – e, pior, se algo – do que está rolando hoje irá sobreviver.

    Parece, enfim, que o único caminho de salvação para o futuro é todos nós, gente de hoje, que tenhamos um fio de veleidade artística, decidirmos simplesmente correr o risco da expressão – na música, nas artes, na literatura. E o tempo que se encarregue de peneirar de tudo isso o que for universal para quem vier.

    Talvez a grande canção do futuro, a grande arte, predestinada a não perecer, seja alguma tentativa decaída de imitação barata de algo que lembre assim uma espécie de Baby mal tocada no violão.

  • Dois Brasis? Ninguém aguenta

    Esse pessoal só pode estar de brincadeira. O Brasil já é difícil de aguentar sendo um só, que dirá sendo dois. Da esquerda à direita, do Oiapoque ao Chuí, eu convoco, eu suplico, eu clamo: vamos parar com essa maluquice de inventar dois Brasis.

    E se não podemos esperar que tenha sobrado algum juízo aos lunáticos que realizam por aí a Micareta do Jair – o maior carnaval fora de época do país, parando estradas, surfando em para-brisas, acampando em portas de quartéis, celebrando notícias falsas como gols e até mesmo cantando o hino nacional com bracinho nazista – , resta chamar à razão os amigos da recém-ampliada, vitaminada e revigorada esquerda.

    Pois bem: feitas todas as odes e justas homenagens ao nosso amado Nordeste, e sem pretender contrariar nenhuma delas, há também que se dizer: tava fácil votar em Lula por aqui, olhando para o lado e se sentindo acolhido por 60, 70, 80 por cento das pessoas.

    Difícil mesmo deve ter sido votar em Lula em Roraima ou no Acre, em Santa Catarina ou em Goiás, onde se sabia ser não apenas minoria, como estar sob o olhar vigilante de uma maioria que reunia, potencialmente, muito mais gente insana, intolerante, agressiva e armada. Não deve ter sido complicado continuar bolsonarista por inércia, como fez o grupo de controle que monitoro aqui na burguesia baiana; duro deve ter sido fazer como o pai do meu amigo, que mora em Florianópolis e, tendo votado no Bozo em 2018, fez campanha para Lula neste ano.

    Então, por que embarcar nesse discurso preguiçoso de que “o Nordeste salvou o Brasil”, resultado talvez da imitação barata da cobertura das eleições nos Estados Unidos, onde, ali sim, o vencedor de um Estado anula os votos do vencido? Se aqui cada cabeça vale um voto, não há razão para, a pretexto de exaltar em vermelho os 93,86% de eleitores de Lula em Guaribas, no Piauí, cobrir de azul no mapa a coragem dos parcos 4% de não bolsonaristas da diminuta Nova Pádua, no Rio Grande do Sul. Não há porque atribuir a vitória mais a nós, os 70,73% de eleitores de Lula na grande e capitalina Salvador, e menos àquela moça corajosa que deu entrevista a Caco Barcelos e Chico Bahia denunciando a escandalosa compra de votos na pequena e interiorana Coronel Sapucaia, no Mato Grosso do Sul.

    Numa eleição definida por diferença de 2.139.645 de votos num universo de mais de 156 milhões, não convém tratar um só voto como mais decisivo do que outro. Ao menos se quisermos fazer valer a frase do presidente eleito de que “não existem dois Brasis” – frase que, se por um lado repele tal divisão, por outro lado a cogita. E é aí que mora o perigo.

    Atribuir ao Nordeste o ‘não passarão’ imposto ao avanço do fascismo – e não ‘dos fascistas’, reforco, para deixar aberta a possibilidade de desembarque aos eleitores de Jair que recusam o nefasto rótulo – só atrai mau olhado para nós. E reforça falsas crenças. Nos nordestófilos, nordestinos ou não, a crença em algum tipo de superioridade moral ou comportamental, talvez em função da água que se bebe ou do ar que se respira na região. Nos nordestófobos, gente aliás muito perigosa, a ilusão de que o Nordeste encerra um povo atrasado, ignorante e subnutrido, que não trabalha, que vota em troca de um prato de comida. Claro que é interessante tentar compreender as razões sociais, econômicas, históricas e comportamentais da maciça votação de Lula no Nordeste; mas não há que se pretender encontrar nisso uma explicação última.

    Mais importante agora é estender a mão aos companheiros lulistas, democratas ou simplesmente antifascistas do Norte e do Sul, do Centro-Oeste e do Sudeste – afinal, a luta por democracia continua e eles estão em minoria, e nós gostamos de defender as minorias. Inclusive porque eles, se não encontrarem lugar no discurso dos vencedores, terão imediato acolhimento caso resolvam desistir da luta e adernar à direita. Recusar interpretações xenofóbicas não só da eleição, como do país, pode até mesmo colaborar com uma desejável reabilitação da direita democrática, favorecendo o trabalho deles de varrer de novo para debaixo do tapete o extremismo que a substituiu.

    Enfim, é como diz a velha máxima: quem quer dividir pretende dominar. Não há dois Brasis porque, no fundo, não há sequer um. Nações são invenções, “comunidades imaginadas”, e acreditar demasiado nelas, ao ponto de torná-las reais a partir de países, regiões, estados, cidades, povos, clãs ou famílias é sinal de imaturidade, pouca inteligência ou, como estamos vendo, insanidade. Se algum Brasil existir, ele é um só, e ainda por cima é engodo e estorvo, porque resultante de um grande e perverso projeto elitista de dominação e exploração dos seres humanos nascidos em todas, todas as partes de seu território. Um projeto cheio de vícios de origem e que, sendo impossível subverter pacificamente, a gente resolveu disputar no voto, para poder ir reformando, remendando, resistindo sob um mínimo de democracia.

    Até o dia, distante ainda umas 20 ou 30 gerações, em que assistiremos da praia, já todos almas encantadas, à quimérica, à quixotesca chegada de barcas e mais barcas, cheias de gente alegre, livre, diversa e verdadeiramente revolucionária, que vão entrar pela Bahia de Todos os Santos e então aportar, e saltar e dizer, sem dar tiro nenhum, que isso aqui é tudo nosso, é tudo do povo, pelo povo, para o povo, com pleno respeito aos direitos de cada cidadão. E todo mundo irá brincar e festar, e aplaudir olhando para o mar, do jeito que hoje em dia o pessoal aplaude o pôr-do-sol.

  • O Museu do Bolsonarismo

    Existe na Alemanha um museu dedicado a conservar e exibir os documentos do período nazista. Na África do Sul, um museu ajuda as pessoas a lembrar e entender o que foi o apartheid. Nos Estados Unidos, um enorme museu conta a história da escravidão dos povos africanos.

    É comum, em nações que se preocupam minimamente em acenar a valores democráticos, construir museus para que o mundo não esqueça os grandes perrengues, ameaças, tristezas e tragédias que seus povos já tiveram que superar na história. Pois bem: agora que o Brasil elegeu um presidente de quem se pode democraticamente esperar e, sempre que necessário, cobrar alguma coisa, vou deixar aqui registrado este singelo pedido: presidente Lula, tão logo o senhor assuma, mande fazer um Museu do Bolsonarismo.

    A primeira sala pode começar relembrando os primórdios. De um lado, vídeos aleatórios de absurdos do Bolsonaro: os escrachos no CQC, as bravatas de que a ditadura deveria ter matado 30 mil, o destrato ameaçador à colega deputada, a menção ao “quilombola de 7 arrobas” e afins. Do outro lado, os panelaços e os protestos contra o preço da passagem, contra a Copa, contra deus e o mundo, a turma achando massa brincar de “o gigante acordou”, e aquele rapaz Aécio Neves contestando a eleição, enquanto um povo doido de verde-amarelo pedia intervenção militar impunemente. E a lava-jato comendo solta. Pixuleco. “Tudo culpa do PT”.

    Na sala seguinte, pula ali para 2017, 2018. Antes, breve passagem pela sessão do impeachment na Câmara, onde o visitante pode ouvir Bolsonaro exaltando Ustra, “o terror de Dilma Roussef”, e recordar a cusparada de Jean Wyllys. Um mural de fotos mostrará o Bozo sendo carregado Brasil a fora por lunáticos que o apelidam de “mito”. O Bozo batendo continência para a bandeira americana. Bananinha fritando hamburger. Bananinha com Steve Bannon. Bananinha ameaçando fechar o Supremo Tribunal Federal (aqui pode ter dois bonecões tamanho real, um soldado e um cabo, e um jipe de verdade, onde crianças poderão inclusive subir, dando uma dimensão da audácia do Zero Três).

    A próxima sala já pode ser a da Eleição de 2018. Ela toda simulando uma UTI, com um boneco de cera do Bozo numa cama hospitalar, com a bolsa de colostomia e tudo mais. Na parede, um vídeo exibe em looping a facada em Juiz de Fora, e uma redoma de vidro ao centro abriga a faca suja de Adélio Bispo, só para impressionar. Numa salinha anexa, se vê Lula fraudulentamente preso, Alckmin abandonado, Ciro viajando para Paris e Haddad segurando uma bucha de mais de 10 milhões de votos atrás. Em telas interativas ao toque, os memes, vídeos, notas, manifestos, abaixo-assinados e todos os alertas que não fizeram cosquinha sequer na sanha reacionária que elegeu o tinhoso. Fecha com a fala de Magno Malta.

    Governo eleito, a próxima sala pode reconstituir o ápice, numa aposta realista: réplica do Rolls Royce presidencial, bonecão do Bozo acenando e outro de Carluxo sentado na tampa do carro. Imprensa rudemente tratada. O cercadinho. Michele discursando em libras. Mourão e sua digníssima de azul subindo a rampa. Vampirão passando a faixa, e o povo das esquerdas assistindo pela televisão, entre pasmo e deprimido.

    Depois vem a sala do ministério. Um inimigo do meio ambiente para cuidar do meio ambiente. Uma inimiga do feminismo para cuidar das mulheres. Um juiz parcial para cuidar da justiça. Um vigarista do mercado financeiro para cuidar da economia. Vários inimigos do conhecimento para cuidar da educação. E militares, militares por toda parte. A sala toda pode ser uma reconstituição daquela reunião ministerial revelada pelo Supremo, a que o visitante poderá ouvir na íntegra, em cinco idiomas, usando o foninho do audioguia.

    Faltou falar que um ministro médico foi escolhido para a saúde, mas obviamente não durou. Assunto propositalmente guardado para a sala seguinte, a da pandemia, onde o visitante se depara com uma gigantesca estátua de um Bolsonaro sorridente oferecendo cloroquina a uma ema. Em uma câmara escura e fria, o visitante ouvirá vozes: “E daí, não sou coveiro!”, “É só uma gripezinha”, “Ai, estou com covid”, com flashes de 690 mil cruzes projetadas no chão, no teto, nas paredes. Uma linha do tempo mostrará os ministros da saúde, exaltando o general Pazuello, que agradou tanto ao chefe na gestão da crise do oxigênio em Manaus que foi agraciado no Rio de Janeiro com um caminhão de votos para deputado. E na sala da CPI, os melhores momentos narrados pelo Galvão do Marcelo Adnet. “Um rrrreal por dose. Pode isso, Arnaldo?”

    Daí em diante, salas diversas podem abordar os principais escândalos conhecidos até o momento. A morte de Bebbiano. A morte de Adriano. A proteção a Daniel Silveira. O porteiro do condomínio Vivendas da Barra. As rachadinhas e a loja da Kopenhagen. Val do Açaí. O cheque de Queiroz na conta de Michelle. Queiroz escondido. Queiroz encontrado, encostado num colchão azul. De repente, se der para descolar um patrocínio compulsório da Havan ou do Madero via Lei Rouanet, podia botar até um holograma do advogado Frederick Wassef sendo perseguido por um repórter, jurando que estava ali de passagem e nada tinha a ver com a família Bolsonaro (o visitante faz o papel do repórter, para dar uma adrenalina). Corta para um vídeo do advogado Frederick Wassef transitando livremente no Palácio no Planalto, meses depois. Mas quem se importava? É que tanto absurdo junto tornou o absurdo banalidade.

    Alguns relacionamentos merecerão certamente salas específicas. Sergio Moro, o vassalo. Alexandre de Morais, o algoz. Augusto Aras, a rainha. Joyce Hasselman, a renegada. Olavo de Carvalho, guru intelectual. Silas Malafaia, guru espiritual. Não deverão ser esquecidas evidentemente as cavalgadas, as motociatas, os Setes de Setembro, os discursos de ódio, os fogos contra o Supremo, os tantos desafetos deixados pelo caminho, vivos ou mortos. Gente que o amava passou a detestá-lo, e “tchuchuca do centrão” virou seu apelido em projeções em Nova Iorque. E o dito centrão, que ele antes renegava, tornou-se sua tábua de salvação, cobrando-lhe em troca um cheque de R$ 45 bilhões vergonhosamente inscrito no orçamento federal. Sim, é difícil ilustrar essas coisas em um projeto expográfico, mas nada será impossível para historiadores, jornalistas, sociólogos e museólogos criativos, a quem aliás faltou trabalho em tempos de tanto ódio à cultura e ao conhecimento.

    O percurso se encerra na eleição de 2022, com emoção e loucura. Aqui eu sugiro um clipe de cortes rápidos e musica ligeira. Um petista é alvejado na festa de aniversário. Bolsonaro agride Vera no debate. Aí aparece um padre falso. Outro petista é morto. Um frame do símbolo da maçonaria. Roberto Jefferson descompensa e mete bala na Polícia Federal. Pacto com demônio, um frame. Mais um petista executado. O padre falso desarma Bob. Zambelli destambelha e mete uma pistola na cara de um sujeito. E, num último gesto desesperado, fundamentalistas infiltrados na Polícia Rodoviária resolvem fiscalizar extintor no dia da eleição – afinal de contas, se não rolar o golpe, pelo menos deram aquela sacaneada básica na vida do povo.

    Diante dos bloqueios de estradas em resposta à derrota nas urnas, é prudente deixarmos em aberto a possibilidade de uma sala para, eventualmente, contar a história de alguma tentativa de levante trumpista por lunáticos e fanáticos. Se formos poupados de novas maluquices, o museu podia terminar com uma sala vazia, branca de cegar, absolutamente silenciosa, ilustrando a originalíssima reação do primeiro presidente brasileiro a não conseguir a reeleição – e o ostracismo ao qual haverá de ser rapidamente relegado pelas víboras e lacaios de que se cercou para governar.

    O museu não sepultará o bolsonarismo, é verdade. Mas deixará registrada a enorme erosão que ele provocou em nossa frágil democracia. E em tempos de pós-verdade, ninguém vai poder dizer que o fantasma do fascismo jamais pairou sobre o Brasil.