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Escrita Secreta

  • Ricardo Sangiovanni
    November 17th, 2023

    intriga

    ver tornar agora a pressa
    de quem sem sentir pratica
    douta indignação seletiva

    erguida toda justa
    pura proba empedernida
    contra o monstro que acredita
    ser a indignação
    (adivinha) seletiva

    de quem talvez só tenha sempre
    sem jeito, sem ser ouvido
    desnudado a vã e isenta
    seletividade indigna

    de quem quando bem quer olha
    no espelho e se vê vítima
    dessa atroz assaz antiga
    vil e mórbida
    sórdida

    intriga

  • Ricardo Sangiovanni
    September 28th, 2023

    Você é apenas você

    Sendo assim você mesmo

    E de repente uma parte sua

    Começa a crescer

    Te repuxar

    Elastecer

    Até que um belo dia

    Ela se destaca

    E vira uma parte sua

    Existindo separada.

    Aí essa parte então

    Toma você pela mão

    Começa a te puxar

    Te esticar

    Te empurrar para frente.

    Você se segura

    Se defende

    Se aferra ao chão

    Diz que agora não

    Me deixa ficar

    Quieto aqui

    No meu canto.

    Mas não adianta:

    Sua parte urgente

    Se atira

    Te puxa mais forte

    Impele para fora.

    Você aí se rebela

    E solta a mão dela:

    Ela cai

    Ela grita

    Ela chora.

    E você, ilusoriamente

    Triunfante se dá conta

    De que aquele lugar

    Em que queria ficar

    Já não existe mais

    – Já não existe mais

    Aquele você de antes –

    E que o melhor a fazer

    É acalmar

    Respirar

    Acolher

    Essa parte nova

    Que alterou você

    Sem você perguntar

    Sem você perceber

    E seguir com ela

    Firme sempre Adiante.

  • Uma crônica amarela

    Ricardo Sangiovanni
    August 14th, 2023

    Saiu no Diário Oficial, já assinei a papelada. Ainda reluto a crer, mas tudo indica que é mesmo verdade: ganhei um prêmio literário.

    Agora vejam como a vida é ingrata: quando finalmente consigo publicar um livro de crônicas, reunindo anotações dos últimos 12 anos, me chega a notícia de que a crônica está morrendo.

    A crônica está morrendo. Que notícia terrível nos traz Julián Fuks, em uma coluna – candidata a crônica – recente e primorosa. Fiquei sabendo por minha irmã, que me cobrou reação. Logo o amigo Ricardo Viel escreveu exortando-me – supondo talvez algum tipo de indignação de minha parte – à contestação: “Se existe alguém capaz de ressuscitar a crônica, esse alguém é você.”

    Eu não, que como cronista ando bissexto, tampouco sou dado a polêmicas. Minto: a polêmicas documentáveis, a toda contenda que extrapole as ondas sonoras do ar que circunda mesas de bar.

    Não gosto, tenho horror, abomino o gênero “carta pública” – não é de meu feitio enviar, e a quem acaso um dia queira me mandar uma, aviso logo que deixarei sem resposta. Não me dou a polêmicas públicas porque, fora do solo comum do diálogo privado entre os que desejam realmente se entender, não faz sentido multiplicar controvérsias – o mundo já anda cheio delas. Até porque tudo hoje em dia pode acabar em briga e, conforme ouvi recentemente de um sábio, “uma coisa é a divergência, outra coisa é o litígio”.

    Concordo que estejam cada vez mais adversas as condições para a produção e consumo da crônica. Que aos que têm tempo de escrever não andam sobrando pernas para circular vagabundos pela rua, e que os que circulam pelas ruas não sejam vagabundos ao ponto de sobrar-lhes tempo para redigir crônicas. Que os algoritmos não reconhecem o valor da crônica, e que os que têm condições de enganar os algoritmos acabem preferindo avassalar-se a eles. E enfim que os que conhecem os cânones do gênero contentem-se em emulá-lo, ao invés de reinventá-lo – contribuindo, a pretexto de homenagem, para sua proscrição.

    Há porém que se observar que a crônica jamais foi lerda ou vagabunda. O maior cronista que já existiu – repitamos, para que jamais se esqueça, o nome de Rubem Braga – escreveu mais de 15 mil delas, diariamente, por muitos anos seguidos. Não há uma boa série de crônicas que não seja fruto de meses ou anos de trabalho ritmado e incessante. Que preguiça, que vagar então há no gênero crônica? Talvez ande faltando cronistas, mas maior certamente é a falta de quem pague pela escrita diária da crônica.

    Tampouco se pode sair por aí culpando os algoritmos – que, sim, limitam, escondem, desviam. Mas quem deseja enfrentá-los pode vencê-los: prova inequívoca é o trabalho do brilhante Fernando Evangelista, que adequou o gênero a três telas do instagram e prega a crônica regularmente a mais de 46 mil fieis seguidores. Quantos fernandos pode ser que existam por aí e não sabemos? Quantos fernandos podem estar surgindo agora, estimulados por seu evangelho de Crônicas Amarelas? Talvez ande faltando leitores, mas maior certamente é a falta de gente disposta a militar por eles.

    Concordo que estejam, por inanição, matando a crônica, tanto quanto duvido de que ela esteja morrendo. Crônica é jornalismo contemplativo – e sempre estaremos em maior número do que nossos admirados colegas do ramo investigativo. Crônica é jornalismo desespecializado – e nós, tímidos e ignorantes, estaremos sempre em vantagem ante os especialistas em utilidades e futilidades. Crônica é jornalismo com algum coração – e nós somos praticamente todos, excetuando a grande maioria dos titulares de colunas (que, com seu autorizado saber e excesso de autoralidade, afastam-se do chão da crônica) e os neutralizados pela necessária idiotice da objetividade.

    A crônica é, inspiro-me aqui naquele poeta, território de desinvenção do mundo. E por isso não se define: quem um dia ousou encaixotá-la em um conceito ou um tempo, morreu, tarantinamente, cinco passos após levantar da cadeira. E se a crônica estiver morrendo… então, viva a crônica!

    (Agora chega, vamos parar com essa conversa de morte, porque, sabe-se lá, vai que atrai…)

  • Ricardo Sangiovanni
    June 2nd, 2023

    Olha bem

    No contraluz

    Ficou uma coisinha leve

    Pairando

    Parada no ar.

    Poeira, deve ser

    E um resto de lume talvez

    Do imenso

    Imensurável

    Choque de rochas

    Meteóricas

    Metamórficas

    Big bang

    Anos atrás

    Que até hoje se faz

    Sentir.

    Sentir

    Não será vedado

    Se o fino material

    Nanoparticulado

    Atravessar o filtro

    Dos pelinhos

    Das narinas

    E levar até o peito

    A potência universal

    Encerrada em cada grão

    Que tenha virado dor

    Ou tenha virado cor

    Tenha virado flor

    Virado amor

    Ou frustração.

    É tudo luz, tudo ilusão

    Poeira de estrela

    Dispersa dentro da gente

    Espaço sideral

    Da palavra

    Que ao dar nome nos resgata

    Do vasto e escuro

    Rotor do real.

  • Ricardo Sangiovanni
    April 28th, 2023

    Coragem,
    nos pede a vida
    já dizia Guimarães.
    Tento, tentamos, tentemos.
    Mas reservo-me o direito
    de temer, quando de novo
    aponta na esquina
    essa dor fina
    aqui no peito.

  • Ricardo Sangiovanni
    February 15th, 2023

    Tudo cura
    cantar
    até a filha
    dormir
    nos braços
    das ondas
    do mar

  • Que tal um Samba?

    Ricardo Sangiovanni
    January 26th, 2023

    Não se pode tirar férias sossegado neste país.

    A gente nem bem pode celebrar uma mísera posse, que uma semana depois já se vê obrigado a ficar pasmo de novo, com os malucos quebrando Brasília toda, com os gastos do cartão corporativo, com o genocídio dos yanomami, com um ex-candidato a anti-herói do esporte mostrando que seu verdadeiro talento é para vilão.

    Pois provados os crimes, que paguem todos: os fascistas pela destruição, Bolsonaro pelos gastos com o cartão, Bolsonaro de novo pela tragédia humanitária em terra indígena, Daniel Alves pelo estupro na boate Sutton.

    Todos esses absurdos, me parece, tiveram reações à altura, mesmo quando a reação foi cobrar reação a quem deveria ter reagido mas não reagiu. Tenho procurado calar sempre que me sinto repetitivo, mas um outro tema que surgiu nesta semana me pareceu razão suficiente para interromper as férias:

    • Cartório proíbe cantor Seu Jorge e esposa de registrar filho como “Samba”.

    A notícia soa em si absurda. Todo mundo noticiou, mas, dando um Google Notícias, ninguém problematizou um singelo (um nefasto) porquê.

    Ao contrário: em muitos sites, o que se viu foram matérias se propondo a explicar, com didatismo, a razão de o cartório ter direito (ou pior, dever) de proibir tal registro: a Lei 6.015/73, em seu parágrafo primeiro, diz que “o oficial de registro civil não registrará prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores”.

    Amparada na letra da lei, uma matéria emenda o seguinte absurdo: “trata-se de uma previsão legal que impede o registro de nomes que possam levar a pessoa à vexação, ferindo sua dignidade humana – alguns são, inclusive, proibidos, caso de “Cachorra”, “Desconhecido”, “Aborto”, “Sem Mãe”, “Bizarro”, “Cadáver” e “Suruba”, dentre outros. Não há, portanto, qualquer viés de censura ou sujeição na legislação, mas uma proteção ao primeiro elemento individualizador do sujeito, seja no âmbito familiar ou no meio social, que é seu prenome”.

    Se entendi bem, propõe-se uma equivalência entre “samba” e coisas como “cadáver”, “aborto”, “bizarro” e afins. Ocorre apenas que “samba”, por qualquer viés que se olhe, não é absolutamente comparável a palavras assim hediondas.

    Por uma razão primeira, mais óbvia: samba é uma palavra de origem africana que no Brasil batiza o talvez mais emblemático ritmo e movimento cultural popular do país – este também de origem africana. Não há como supor que uma pessoa vá ser terrivelmente hostilizada ou ridicularizada por se chamar Samba, um nome bonito e sonoro, tão poético quando Sol, Lua ou Manhã, para não dizer tão potencialmente rítimico-cultural quanto… Roque.

    Mas também por uma razão segunda, que também deveria ser óbvia, mas que, curiosamente, nenhuma matéria na lista do Google Notícias problematiza: Samba é um nome próprio razoavelmente encontrável em África. Dois exemplos:

    1) o cantor e guitarrista Samba Touré, do Mali – que aliás não vem a ser necessariamente um sambista;

    2) o economista Samba Tenem Camará, de Guiné-Bissau, de quem tive a satisfação de ser colega no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos na Universidade Federal da Bahia – e que, em sua temporada baiana, não me consta ter sido “vexado” ou “ferido em sua dignidade” no Brasil por seu belo nome – que, tamanha a força sonora que resulta da composição com o “Tenem Camará”, marcou minha memória.

    Ou seja, se nomes próprios estrangeiros passarem a ser vetados, ninguém mais vai poder batizar o filho de Washington, Lorenzo, William ou Paola.

    Ora, se Samba é uma palavra bonita, sonora e simbólica no português do Brasil, e se é um nome próprio em países africanos, por que haverá de ser proibido pelos oficiais de cartório nacionais?

    E ainda: por que tal proibição se pratica com o silêncio cúmplice da cobertura jornalística acerca do episódio, tratando-o pela chave do pitoresco e do excêntrico, quando não autorizando-se a depreender lições de moral como esta, em que se aconselha o cantor e sua esposa, Karina Barbieri, a “ter bom senso e flexibilizar, usando o termo samba em um nome composto; por exemplo: Pedro Samba Barbieri da Silva”?

    Ora, porque o Brasil continua sendo um país imensa, profunda, estrutural e lamentavelmente racista – racista a um tal ponto que não nos deixa tirar férias.

  • Ricardo Sangiovanni
    January 8th, 2023

    Apertar o bendito botão
    que implode de vez esse mundo
    é direito adquirido
    de quem sempre esteve no fundo
    represado, comprimido.

    Se é assim, então
    é direito dos pretos
    dos índios
    dos oprimidos
    das minas, das bichas
    dos bichos
    dos joias, dos noias
    dos mal-nascidos
    – e olha que eles nunca
    que quiseram lançar mão.

    Não há pois de ser agora
    – ora qual patacoada –
    que os brancos broncos
    os tontos
    os tanques, os trovoadas
    os malas, os balas
    os mitos, a milicada
    os bozos, os trumps
    os vamps, que vivem chupando sangue
    haverão de passar na frente
    e mais uma vez lhes roubar
    – sorrateiros, como sói –
    o diabo
    da vez.

  • Eu já sabia

    Ricardo Sangiovanni
    December 24th, 2022

    Eu já sabia que o Brasil não ia ganhar essa Copa.

    Desculpem levar tantos dias para dizer essa obviedade. Foi o tempo que dei à crônica esportiva para ver se alguém manifestava com a necessária clareza esse sentimento do povo brasileiro diante de mais um fracasso.

    Mas ninguém se atreveu a dizer o óbvio, porque as pessoas só têm coragem de dizer “eu já sabia” na hora boa, da gracinha, do meme, da vitória. Quando perde, ninguém diz, talvez por medo de que alguém pergunte: – Se sabia, por que não disse antes?

    Não disse antes porque pareceria mau agouro, e não tem coisa pior do que ser acusado de agourento – inclusive, dá azar. E também porque teria sido uma tremenda indelicadeza com o treinador, os atletas, os profissionais envolvidos na realização e cobertura do evento, enfim, com o sofrido povo brasileiro, cada um fazendo a sua parte: agir, agir a despeito do destino, agir caoticamente, cada qual a seu modo e propósito, contra tudo e todos em nome da vitória… mesmo sabendo, intimamente, que essa taça não seria nossa (e, para dor dos mais iludidos por desgastadas mitologias nacionalistas, que dessa vez ela seria argentina).

    Sim, porque mesmo quando sentimos no fundo do peito que algo que desejamos não irá acontecer, a energia vital que nos atravessa a todos fustiga (ou constrange) à ação. Tudo já está escrito nas estrelas, o destino é borgianamente – logo, perdoem-me, argentinamente – prefigurado. Mas ele se concretiza como resultante da síntese vetorial energética das ações de todas as pessoas do mundo, direta ou indiretamente manifestadas em função de um determinado acontecimento. Não agir – não jogar, não torcer, não acreditar nem desacreditar – seria pusilânime, se essa fosse uma possibilidade. O amor e o ódio, o fervor e a indiferença são direitos; só não existe a inação: torcer pelo Brasil é torcer, torcer contra é torcer, torcer pela França, pelo Marrocos, pela Argentina é torcer, e mesmo ignorar a existência da Copa do Mundo é torcer.

    Não é porque já saibamos que deixamos de mover alguma energia contra ou a favor de nosso desejo. Mas não há como negar que, no fundo, já sabemos. Quem é acostumado a torcer já sabe quando o time vai ganhar, mesmo sendo inferior, ou perder, mesmo sendo melhor no papel. Assim como já sabemos quando não temos futuro num emprego, quando um relacionamento não vai dar certo, quando as seis dezenas que jogamos na loteria sairão mais uma vez para um apostador de Balneário Camburiú… e, mesmo assim, humanamente insistimos.

    Fala a verdade: quem sentiu profunda dor quando a bola da Croácia entrou? Quem acreditou de coração sincero que o Brasil ganharia a Copa liderado pela seriedade de Neymar? Quem ficou serenamente satisfeito, ao ponto de nada ter a dizer contra ou a favor, com a convocação do quase ex-jogador Daniel Alves? Quem não questionou, ainda que silenciosamente, a ausência de Gabigol – o nosso Gurincrível, um grosso iludido de que é craque, e que de tanto acreditar é capaz de façanhas apenas a craques reservadas – ante a presença do desconhecido Martinelli?

    Quem, enfim, teve fé no professor Tite, sempre certo do pleno controle de tudo, até que tudo, na hora decisiva, demonstrou estar absolutamente descontrolado? Que fale por si, pela eternidade das copas, a corrida desesperada de Alex Sandro, o lateral-esquerdo ofensivo que voltava de lesão colocado em campo para segurar o resultado no lugar de um zagueiro deslocado para a lateral-direita, invertendo posição com o lateral-direito que jogara improvisado na esquerda… a putos 15 minutos do fim de um jogo ganho. Ao inferno os desenhistas de esquema tático em guardanapo: futebol não é jogo de botão, não é video-game, em que treinadores certos de ter “o time na mão” podem “mexer nas peças” a qualquer momento, ao bel prazer de sua ilusória genialidade. A incerteza, a dúvida, o medo, coisas que a titebilidade oculta tão bem, são fundamentais no caminho da genuína vitória.

    E como ter certeza de que já sabíamos que iríamos perder? Basta lembrar que, quando vencemos, nós também sentimos que, no fundo, já sabíamos. Eu já sabia em 94, quando, seis meses antes da Copa, atravessando uma rodovia no meio do sertão baiano, meu primo Bruno, de 11 anos, virou e disse, do nada, “Rapaz, estou sentindo que o Brasil vai ganhar essa Copa” – ao que respondi com a lúcida certeza de meus 9 anos: “Rapaz, eu também”. Eu já sabia em 2002, quando, tendo assistido todo o mundial fazendo orgias etílicas com amigos madrugada adentro, aceitei o convite da mãe da namorada para passar o fim de semana da finalíssima na isolada fazenda da família… e tive a certeza de que, só para me sacanear, o Brasil me proporcionaria uma vitória histórica sentado diante de uma TV meio fora do ar, sentado num sofá duro, no seio de uma família casta e sem uma gota de álcool na boca. A gente sempre sabe.

    – Se sabia, por que não disse antes? – insistirão os idiotas da objetividade. Não disse antes porque não se deve tentar antecipar o destino com a força de nosso ceticismo, mas sim se entregar e torcer e insistir em acreditar quando tudo parece – e está – perdido. Não acreditei, mas fiz minha parte, agora posso falar. E antes que alguém me chame de canalha, impostor ou charlatão, apresento como prova minha aposta na Argentina no bolão, antes de começar a Copa.

    Eu já sabia. E vou logo avisando: tratem de ganhar em 2026. Armem uma retranca, joguem sério, entrem de mãos dadas, se virem, mas evitem o recorde de 30 anos sem levantar uma Copa. Senão, eu volto.

  • Galvão, nosso Homero

    Ricardo Sangiovanni
    November 23rd, 2022

    Bem, amigos: está começando a Copa, dizem que a última narrada por Galvão Bueno. Viveremos – nós, espíritos decaídos que não conseguimos desencarnar do velho e desigual futebol – cada jogo com a consciência entristecida de quem sabe estar presenciando o ocaso de uma era. Haja coração.

    O Brasil já odiou, já adorou, já imitou, já memificou, mas arrisco dizer que ainda não está preparado para reconhecer a importância de Galvão para a cultura, e mesmo para a linguagem em nosso país. Galvão um dia será nosso Homero, tido, havido e aclamado por literatos como o inventor de nossa épica esportiva, impregnada no falar cotidiano com as muitas, as imemoriais imagens de suas metáforas adormecidas.

    Aceitar essa proposição requer suspender, por um momento, as miudezas que o Galvão homem-de-seu-tempo implica. Não se trata de gostar, concordar ou compreender Galvão, mas sim de abrir o espírito ao reconhecimento de sua relevância, digamos, antropológica, inegável frente à ampla apropriação popular de seus bordões – à força de bombardeio Global, é verdade, mas nem por isso menos carregados de graciosa cosmovisão.

    Reparem nas estátuas de feição greco-romana nas bordas da piscina da casa de Galvão. Em suas foto-ostentações em Florença, em sua casa em Mônaco. Tudo evidencia que ele nasceu neste tempo por acaso, que o jeito de bon vivant carioca é, na verdade, eco de alguma vida passada em que ele foi nababesco imperador.

    Galvão vê em cada estádio um Coliseu; em cada atleta, um gladiador; em cada jogo, a luta, a saga, o drama de todo um povo unido no pulsar de milhões de corações rufando feito tambores do Olodum. Nenhum detalhe será trivial, tudo haverá de ser romanamente grandiloquente na épica galvaniana – que, há quase 50 anos, vem propondo ao brasileiro que se recuse a aceitar que a vida seja tratada como banalidade.

    A comparação com Homero não é casual. Sobre o grande narrador da Grécia Antiga, Jorge Luis Borges dizia que, em seu texto, metáforas que por vezes consideramos hoje o primor da poesia eram nada mais do que óbvias imagens à mão, a serviço das necessidades impostas pela narrativa, ao ponto de apagar até mesmo heróis, como Aquiles e Ulisses, ante o imperativo de comunicar os acontecimentos. E com o tempo, essas imagens foram adquirindo vida própria e novos significados, aplicáveis a funções totalmente descoladas da intenção original.

    Inspirado pelo mestre argentino, postulo que daqui a cem anos as pessoas comemorarão suas primeiras conquistas amorosas dizendo ‘sai que é sua’, sem a menor ideia de quem foi Taffarel. Dirão ‘toca, toca errrrado’ para criticar o serviço mal feito por um colega de trabalho, sem cogitar um erro crasso de passe. Encerrarão reuniões de estratégia empresarial com motivacionais ‘pra cima deles!’ sem lembrar de Romário, Rivaldo, Ronaldo ou Ronaldinho. Celebrarão toda e qualquer vitória com a gritos guturais de “É tetraaaa!” – expressão que será dicionarizada como interjeição. Anunciarão, enfim, tretas iminentes com o cinzento ‘vai se criando um clima’, ignorando que estão citando… Galvão.

    Galvão, goste-se ou não, é isso: é clima, clima de copa do mundo, amigo. Isso é tão verdade que – permitam-me o testemunho – a Copa de 2006, a que assisti na Alemanha, país-sede daquele ano, é menos copa em minha memória: sentia-me órfão de algo, e me dei conta de que era da narração de Galvão, cuja falta fez até mesmo a derrota para a França doer menos.

    Como será daqui para frente, sem Galvão? O futebol se tornará uma Formula 1, a quem ninguém mais dá a atenção de antes? Não é só porque agora passa na Band, nem só pela ausência de um Senna: se, por um lado, celebro a notoriedade de um Lewis Hamilton como um grande campeão ativista contra o racismo, por outro, lamento imensamente que a nova geração de brasileiros não tenha a menor intimidade com detalhes fundamentais daquele esporte, como a chincane, a variante baixa, o pneu biscoito, o hairpin – mesmo sem ter a menor ideia de que diabo fosse cada uma dessas coisas. Resta acreditar que a épica galvaniana sobreviverá, revivendo secretamente a cada vez que alguém, diante de um objetivo inatingível, quando tudo leve a crer que ‘a física não permite’, disser: ‘lá vem a chuva, amigo’.

    A quem deplore Galvão pelo elitismo, sem discordar observarei: é menos pior provocar o povo a desejar comer tomahawk e bife ancho do que exaltar o vil pão com leite moça. Enquanto salivo por uma inacessível pata de jamón ibérico harmonizado com o Bueno Wines mais adequado, prefiro pensar que o conselho (- Faça assim!) de Galvão, mais do que tripudiar na cara povo, atualiza nosso maior desafio: socializar para todos a boa comida, a boa bebida, as coisas boas que a burguesia aprecia. E se nada disso bastar, lembremos: jamais se saberá quem foi o Homero de carne e osso, muito menos o que os gregos antigos, seus contemporâneos, pensavam dele.

    Justo mesmo seria se a cada pessoa fosse concedida uma voz narradora em permanente plantão, uma espécie de Galvão interior, sempre ali para não nos deixar esquecer nosso próprio brilho, para afagar nossa própria covardia. Alguém para nos dizer ‘faça a sua festa’ em nossas pequenas glórias cotidianas; e nas derrotas, nos amparar, dizendo ‘esse aí é um gigante, lutou e caiu de pé’.

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