Saiu no Diário Oficial, já assinei a papelada. Ainda reluto a crer, mas tudo indica que é mesmo verdade: ganhei um prêmio literário.
Agora vejam como a vida é ingrata: quando finalmente consigo publicar um livro de crônicas, reunindo anotações dos últimos 12 anos, me chega a notícia de que a crônica está morrendo.
A crônica está morrendo. Que notícia terrível nos traz Julián Fuks, em uma coluna – candidata a crônica – recente e primorosa. Fiquei sabendo por minha irmã, que me cobrou reação. Logo o amigo Ricardo Viel escreveu exortando-me – supondo talvez algum tipo de indignação de minha parte – à contestação: “Se existe alguém capaz de ressuscitar a crônica, esse alguém é você.”
Eu não, que como cronista ando bissexto, tampouco sou dado a polêmicas. Minto: a polêmicas documentáveis, a toda contenda que extrapole as ondas sonoras do ar que circunda mesas de bar.
Não gosto, tenho horror, abomino o gênero “carta pública” – não é de meu feitio enviar, e a quem acaso um dia queira me mandar uma, aviso logo que deixarei sem resposta. Não me dou a polêmicas públicas porque, fora do solo comum do diálogo privado entre os que desejam realmente se entender, não faz sentido multiplicar controvérsias – o mundo já anda cheio delas. Até porque tudo hoje em dia pode acabar em briga e, conforme ouvi recentemente de um sábio, “uma coisa é a divergência, outra coisa é o litígio”.
Concordo que estejam cada vez mais adversas as condições para a produção e consumo da crônica. Que aos que têm tempo de escrever não andam sobrando pernas para circular vagabundos pela rua, e que os que circulam pelas ruas não sejam vagabundos ao ponto de sobrar-lhes tempo para redigir crônicas. Que os algoritmos não reconhecem o valor da crônica, e que os que têm condições de enganar os algoritmos acabem preferindo avassalar-se a eles. E enfim que os que conhecem os cânones do gênero contentem-se em emulá-lo, ao invés de reinventá-lo – contribuindo, a pretexto de homenagem, para sua proscrição.
Há porém que se observar que a crônica jamais foi lerda ou vagabunda. O maior cronista que já existiu – repitamos, para que jamais se esqueça, o nome de Rubem Braga – escreveu mais de 15 mil delas, diariamente, por muitos anos seguidos. Não há uma boa série de crônicas que não seja fruto de meses ou anos de trabalho ritmado e incessante. Que preguiça, que vagar então há no gênero crônica? Talvez ande faltando cronistas, mas maior certamente é a falta de quem pague pela escrita diária da crônica.
Tampouco se pode sair por aí culpando os algoritmos – que, sim, limitam, escondem, desviam. Mas quem deseja enfrentá-los pode vencê-los: prova inequívoca é o trabalho do brilhante Fernando Evangelista, que adequou o gênero a três telas do instagram e prega a crônica regularmente a mais de 46 mil fieis seguidores. Quantos fernandos pode ser que existam por aí e não sabemos? Quantos fernandos podem estar surgindo agora, estimulados por seu evangelho de Crônicas Amarelas? Talvez ande faltando leitores, mas maior certamente é a falta de gente disposta a militar por eles.
Concordo que estejam, por inanição, matando a crônica, tanto quanto duvido de que ela esteja morrendo. Crônica é jornalismo contemplativo – e sempre estaremos em maior número do que nossos admirados colegas do ramo investigativo. Crônica é jornalismo desespecializado – e nós, tímidos e ignorantes, estaremos sempre em vantagem ante os especialistas em utilidades e futilidades. Crônica é jornalismo com algum coração – e nós somos praticamente todos, excetuando a grande maioria dos titulares de colunas (que, com seu autorizado saber e excesso de autoralidade, afastam-se do chão da crônica) e os neutralizados pela necessária idiotice da objetividade.
A crônica é, inspiro-me aqui naquele poeta, território de desinvenção do mundo. E por isso não se define: quem um dia ousou encaixotá-la em um conceito ou um tempo, morreu, tarantinamente, cinco passos após levantar da cadeira. E se a crônica estiver morrendo… então, viva a crônica!
(Agora chega, vamos parar com essa conversa de morte, porque, sabe-se lá, vai que atrai…)