Eu já sabia que o Brasil não ia ganhar essa Copa.
Desculpem levar tantos dias para dizer essa obviedade. Foi o tempo que dei à crônica esportiva para ver se alguém manifestava com a necessária clareza esse sentimento do povo brasileiro diante de mais um fracasso.
Mas ninguém se atreveu a dizer o óbvio, porque as pessoas só têm coragem de dizer “eu já sabia” na hora boa, da gracinha, do meme, da vitória. Quando perde, ninguém diz, talvez por medo de que alguém pergunte: – Se sabia, por que não disse antes?
Não disse antes porque pareceria mau agouro, e não tem coisa pior do que ser acusado de agourento – inclusive, dá azar. E também porque teria sido uma tremenda indelicadeza com o treinador, os atletas, os profissionais envolvidos na realização e cobertura do evento, enfim, com o sofrido povo brasileiro, cada um fazendo a sua parte: agir, agir a despeito do destino, agir caoticamente, cada qual a seu modo e propósito, contra tudo e todos em nome da vitória… mesmo sabendo, intimamente, que essa taça não seria nossa (e, para dor dos mais iludidos por desgastadas mitologias nacionalistas, que dessa vez ela seria argentina).
Sim, porque mesmo quando sentimos no fundo do peito que algo que desejamos não irá acontecer, a energia vital que nos atravessa a todos fustiga (ou constrange) à ação. Tudo já está escrito nas estrelas, o destino é borgianamente – logo, perdoem-me, argentinamente – prefigurado. Mas ele se concretiza como resultante da síntese vetorial energética das ações de todas as pessoas do mundo, direta ou indiretamente manifestadas em função de um determinado acontecimento. Não agir – não jogar, não torcer, não acreditar nem desacreditar – seria pusilânime, se essa fosse uma possibilidade. O amor e o ódio, o fervor e a indiferença são direitos; só não existe a inação: torcer pelo Brasil é torcer, torcer contra é torcer, torcer pela França, pelo Marrocos, pela Argentina é torcer, e mesmo ignorar a existência da Copa do Mundo é torcer.
Não é porque já saibamos que deixamos de mover alguma energia contra ou a favor de nosso desejo. Mas não há como negar que, no fundo, já sabemos. Quem é acostumado a torcer já sabe quando o time vai ganhar, mesmo sendo inferior, ou perder, mesmo sendo melhor no papel. Assim como já sabemos quando não temos futuro num emprego, quando um relacionamento não vai dar certo, quando as seis dezenas que jogamos na loteria sairão mais uma vez para um apostador de Balneário Camburiú… e, mesmo assim, humanamente insistimos.
Fala a verdade: quem sentiu profunda dor quando a bola da Croácia entrou? Quem acreditou de coração sincero que o Brasil ganharia a Copa liderado pela seriedade de Neymar? Quem ficou serenamente satisfeito, ao ponto de nada ter a dizer contra ou a favor, com a convocação do quase ex-jogador Daniel Alves? Quem não questionou, ainda que silenciosamente, a ausência de Gabigol – o nosso Gurincrível, um grosso iludido de que é craque, e que de tanto acreditar é capaz de façanhas apenas a craques reservadas – ante a presença do desconhecido Martinelli?
Quem, enfim, teve fé no professor Tite, sempre certo do pleno controle de tudo, até que tudo, na hora decisiva, demonstrou estar absolutamente descontrolado? Que fale por si, pela eternidade das copas, a corrida desesperada de Alex Sandro, o lateral-esquerdo ofensivo que voltava de lesão colocado em campo para segurar o resultado no lugar de um zagueiro deslocado para a lateral-direita, invertendo posição com o lateral-direito que jogara improvisado na esquerda… a putos 15 minutos do fim de um jogo ganho. Ao inferno os desenhistas de esquema tático em guardanapo: futebol não é jogo de botão, não é video-game, em que treinadores certos de ter “o time na mão” podem “mexer nas peças” a qualquer momento, ao bel prazer de sua ilusória genialidade. A incerteza, a dúvida, o medo, coisas que a titebilidade oculta tão bem, são fundamentais no caminho da genuína vitória.
E como ter certeza de que já sabíamos que iríamos perder? Basta lembrar que, quando vencemos, nós também sentimos que, no fundo, já sabíamos. Eu já sabia em 94, quando, seis meses antes da Copa, atravessando uma rodovia no meio do sertão baiano, meu primo Bruno, de 11 anos, virou e disse, do nada, “Rapaz, estou sentindo que o Brasil vai ganhar essa Copa” – ao que respondi com a lúcida certeza de meus 9 anos: “Rapaz, eu também”. Eu já sabia em 2002, quando, tendo assistido todo o mundial fazendo orgias etílicas com amigos madrugada adentro, aceitei o convite da mãe da namorada para passar o fim de semana da finalíssima na isolada fazenda da família… e tive a certeza de que, só para me sacanear, o Brasil me proporcionaria uma vitória histórica sentado diante de uma TV meio fora do ar, sentado num sofá duro, no seio de uma família casta e sem uma gota de álcool na boca. A gente sempre sabe.
– Se sabia, por que não disse antes? – insistirão os idiotas da objetividade. Não disse antes porque não se deve tentar antecipar o destino com a força de nosso ceticismo, mas sim se entregar e torcer e insistir em acreditar quando tudo parece – e está – perdido. Não acreditei, mas fiz minha parte, agora posso falar. E antes que alguém me chame de canalha, impostor ou charlatão, apresento como prova minha aposta na Argentina no bolão, antes de começar a Copa.
Eu já sabia. E vou logo avisando: tratem de ganhar em 2026. Armem uma retranca, joguem sério, entrem de mãos dadas, se virem, mas evitem o recorde de 30 anos sem levantar uma Copa. Senão, eu volto.