Bem, amigos: está começando a Copa, dizem que a última narrada por Galvão Bueno. Viveremos – nós, espíritos decaídos que não conseguimos desencarnar do velho e desigual futebol – cada jogo com a consciência entristecida de quem sabe estar presenciando o ocaso de uma era. Haja coração.
O Brasil já odiou, já adorou, já imitou, já memificou, mas arrisco dizer que ainda não está preparado para reconhecer a importância de Galvão para a cultura, e mesmo para a linguagem em nosso país. Galvão um dia será nosso Homero, tido, havido e aclamado por literatos como o inventor de nossa épica esportiva, impregnada no falar cotidiano com as muitas, as imemoriais imagens de suas metáforas adormecidas.
Aceitar essa proposição requer suspender, por um momento, as miudezas que o Galvão homem-de-seu-tempo implica. Não se trata de gostar, concordar ou compreender Galvão, mas sim de abrir o espírito ao reconhecimento de sua relevância, digamos, antropológica, inegável frente à ampla apropriação popular de seus bordões – à força de bombardeio Global, é verdade, mas nem por isso menos carregados de graciosa cosmovisão.
Reparem nas estátuas de feição greco-romana nas bordas da piscina da casa de Galvão. Em suas foto-ostentações em Florença, em sua casa em Mônaco. Tudo evidencia que ele nasceu neste tempo por acaso, que o jeito de bon vivant carioca é, na verdade, eco de alguma vida passada em que ele foi nababesco imperador.
Galvão vê em cada estádio um Coliseu; em cada atleta, um gladiador; em cada jogo, a luta, a saga, o drama de todo um povo unido no pulsar de milhões de corações rufando feito tambores do Olodum. Nenhum detalhe será trivial, tudo haverá de ser romanamente grandiloquente na épica galvaniana – que, há quase 50 anos, vem propondo ao brasileiro que se recuse a aceitar que a vida seja tratada como banalidade.
A comparação com Homero não é casual. Sobre o grande narrador da Grécia Antiga, Jorge Luis Borges dizia que, em seu texto, metáforas que por vezes consideramos hoje o primor da poesia eram nada mais do que óbvias imagens à mão, a serviço das necessidades impostas pela narrativa, ao ponto de apagar até mesmo heróis, como Aquiles e Ulisses, ante o imperativo de comunicar os acontecimentos. E com o tempo, essas imagens foram adquirindo vida própria e novos significados, aplicáveis a funções totalmente descoladas da intenção original.
Inspirado pelo mestre argentino, postulo que daqui a cem anos as pessoas comemorarão suas primeiras conquistas amorosas dizendo ‘sai que é sua’, sem a menor ideia de quem foi Taffarel. Dirão ‘toca, toca errrrado’ para criticar o serviço mal feito por um colega de trabalho, sem cogitar um erro crasso de passe. Encerrarão reuniões de estratégia empresarial com motivacionais ‘pra cima deles!’ sem lembrar de Romário, Rivaldo, Ronaldo ou Ronaldinho. Celebrarão toda e qualquer vitória com a gritos guturais de “É tetraaaa!” – expressão que será dicionarizada como interjeição. Anunciarão, enfim, tretas iminentes com o cinzento ‘vai se criando um clima’, ignorando que estão citando… Galvão.
Galvão, goste-se ou não, é isso: é clima, clima de copa do mundo, amigo. Isso é tão verdade que – permitam-me o testemunho – a Copa de 2006, a que assisti na Alemanha, país-sede daquele ano, é menos copa em minha memória: sentia-me órfão de algo, e me dei conta de que era da narração de Galvão, cuja falta fez até mesmo a derrota para a França doer menos.
Como será daqui para frente, sem Galvão? O futebol se tornará uma Formula 1, a quem ninguém mais dá a atenção de antes? Não é só porque agora passa na Band, nem só pela ausência de um Senna: se, por um lado, celebro a notoriedade de um Lewis Hamilton como um grande campeão ativista contra o racismo, por outro, lamento imensamente que a nova geração de brasileiros não tenha a menor intimidade com detalhes fundamentais daquele esporte, como a chincane, a variante baixa, o pneu biscoito, o hairpin – mesmo sem ter a menor ideia de que diabo fosse cada uma dessas coisas. Resta acreditar que a épica galvaniana sobreviverá, revivendo secretamente a cada vez que alguém, diante de um objetivo inatingível, quando tudo leve a crer que ‘a física não permite’, disser: ‘lá vem a chuva, amigo’.
A quem deplore Galvão pelo elitismo, sem discordar observarei: é menos pior provocar o povo a desejar comer tomahawk e bife ancho do que exaltar o vil pão com leite moça. Enquanto salivo por uma inacessível pata de jamón ibérico harmonizado com o Bueno Wines mais adequado, prefiro pensar que o conselho (- Faça assim!) de Galvão, mais do que tripudiar na cara povo, atualiza nosso maior desafio: socializar para todos a boa comida, a boa bebida, as coisas boas que a burguesia aprecia. E se nada disso bastar, lembremos: jamais se saberá quem foi o Homero de carne e osso, muito menos o que os gregos antigos, seus contemporâneos, pensavam dele.
Justo mesmo seria se a cada pessoa fosse concedida uma voz narradora em permanente plantão, uma espécie de Galvão interior, sempre ali para não nos deixar esquecer nosso próprio brilho, para afagar nossa própria covardia. Alguém para nos dizer ‘faça a sua festa’ em nossas pequenas glórias cotidianas; e nas derrotas, nos amparar, dizendo ‘esse aí é um gigante, lutou e caiu de pé’.