Escrita Secreta

Por Ricardo Sangiovanni


O Grande Curso de Leitura Estática

Em um dos mundos que imagino, cada pessoa tem direito a receber pelo tempo que é exposta a anúncios publicitários.

Isso mesmo: se uma empresa deseja vender alguma coisa, que comece remunerando seu potencial cliente pelo quinhão de tempo que ele se digna a dedicar ao tal produto, a estudar se funciona, se o preço é justo, se atende a uma necessidade real. Não seriam mais do que algumas frações de centavo por cada segundo de anúncios diante da vista – centavos que somados, no final do mês, poderiam fazer a diferença no orçamento de muita gente, nesses tempos de crise. Uma espécie de anti-uber da publicidade.

Mas nos mundos que idealizo, não é o homem que prioriza o dinheiro, e sim o dinheiro que prioriza o homem – por isso mesmo é que eles não existem. Neste mundo em que vivemos, encontro-me ultimamente na mira de anunciantes que atuam livremente na plataforma instagram. Minha timeline encontra-se neste momento sitiada por insidiosas propagandas, especialmente a de um videogame retrô, com dois joysticks e 40 mil jogos, e as de dois cursos: um que promete ensinar tudo sobre xadrez, e o outro, o famigerado “leia 600 palavras por minuto praticando apenas 15 minutos por dia”. Venho resistindo bravamente, mas sinto minha força mental sendo minada a cada dia: suspeito que todo anunciante de instagram tenha feito o curso do Lobo de Wallstreet, aquele do “me venda esta caneta.” Eles são bons, vendem qualquer tranqueira.

Espera, qualquer tranqueira não. Nada pode ser mais tentador do que um curso de leitura dinâmica para quem passou os últimos quase quatro anos tendo pelo menos um bebê em casa, e metade desse tempo tendo dois. A pessoa já está se conformando de que nunca mais na vida vai conseguir ler meia página sem cair no sono, quando, do nada, aparece na timeline um careca vindo de marte prometendo devolver foco e concentração para você conseguir ler mais de 50 livros por ano, com apenas 3 semanas de curso, tudo 100% validado pela neurociência… é covardia.

Ando com medo dos livros. Vivo cercado deles, quase todos comprados antes de as crianças nascerem. Eles se movem das prateleiras, empilhando-se em mesas e cabeceiras, escondendo-se em mochilas e gavetas, conforme a algazarra dos meninos ou meus múltiplos planos irrealizados de retomada de projetos sérios – literários, jornalísticos, historiográficos… todos naufragados no oceano da exaustão. Ninguém lê direito com a criançada subindo pelo pescoço, puxando os cabelos, colocando em risco a vida e o patrimônio. Sim, eles cochilam, mas que ânimo sobra para se aprofundar em qualquer coisa sabendo que dali a poucos minutos alguém vai acordar berrando por atenção ou por uma mamadeira? Sim, eles dormem à noite, mas qual cérebro ainda funciona depois de um dia inteiro sendo mascado por melodias de desenhos animados?

Já me disseram que as crianças crescem e que tudo isso passa: resigno-me a acreditar nessa fábula, e tenho conseguido aproveitar com intensidade cada minuto de fofura. Mas não quero sair disso de mãos abanando. Estou anotando tudo para um dia anunciar no instagram o Grande Curso de Leitura Estática. Leve 600 minutos para ler 15 palavras: meia página por dia, e no outro dia, a mesma meia página. Perca a concentração e esqueça sem desespero. Adie planos e perca prazos sem se penitenciar, por vezes até celebrando isso. Lide decentemente com o medo de nunca mais voltar a ser produtivo, quanto menos criativo, nesta vida e nas próximas duas. Compense-se no tempo que resta chafurdando no noticiário esportivo, jogando no Cartola (não riam, ano passado ganhei 3 mil reais) e alugando amigos nos grupos do Whatsapp com reflexões baseadas em seu mais puro e leviano achismo.

Aprenda, enfim, com o Grande Curso de Leitura Estática, a se divertir e ter paciência e dignidade com a vida nos momentos em que ela não te coloca em primeiro lugar. Será que isso vende?

O curso de leitura dinâmica subiu no telhado. O xadrez terá seu momento, não é preciso ter pressa. O videogame… bem, com 40 mil jogos e dois joysticks, até que sai em conta. Esse eu vou deixar para avaliar quando o décimo-terceiro entrar.