Escrita Secreta

Por Ricardo Sangiovanni


Baby

Disse outro dia a uma amiga, que há mais de dez anos não via, que meu repertório no violão continua o mesmo, as mesmas 10 ou 15 canções mal tocadas. Ela disse que já não lembra, que vai soar original se eu tocar.

Uma dessas canções é Baby, composta por Caetano Veloso e eternizada na voz de Gal Costa, que nos deixou ontem.

Que linda, que grande artista foi Gal. Artista quando morre aumenta, porque todo mundo que o ama fala dele ao mesmo tempo, como nunca havia falado enquanto ele estava vivo, já que não faria o menor sentido. E quem eventualmente não goste, em respeito, silencia e nos poupa de ruído.

Gal é de uma geração de artistas imensamente importante para nosso país. Sem ter muito a acrescentar aos belos e informativos textos que venho lendo sobre ela desde ontem, queria só mesmo registrar que a morte de Gal como que principia a chegada de um tempo que sempre soube que chegaria, tanto quanto nunca soube como iria enfrentar: uma nova e vazia era deste país sem esse panteão luminoso: Gal, Bethânia, Caetano, Gil, Milton, Chico, enfim, há outros, mas acho que esses são os mais centrais.

Não acompanho a cena musical (aliás, cena alguma) com a devida regularidade, mas nada que veio depois desse pessoal me toca tão definitivamente quanto a obra deles. Encontro ali escola, alimento, remédio para tudo. Suspeito que seja por uma pretensão a alcançar o universal – temático, semântico, sentimental, espiritual e musical – muito própria da geração deles, e que foi se esmaecendo, talvez pelo chamado da contemporaneidade ao aprofundamento nos temas, nos campos, nas técnicas, nas especialidades; mas sobretudo pelo fato de que esses grandes nomes já existiam, sendo portanto contraindicado a quem veio depois pretender imitá-los.

Artistas assim como Gal me fazem pensar no que constitui um grande artista, em qual sua real necessidade, seja para as pessoas, seja para a sociedade.

Às pessoas, acho que eles dão os instrumentos para sentir. Sim, porque sentir não é algo meramente abstrato ou interno à pessoa, requer toda uma materialidade. Ninguém festeja, ama, sofre ou sente saudade ‘por dentro’ e pronto: usamos para isso a arte feita pelos outros.

À sociedade, os artistas oferecem talvez a cola que lhe possibilita a própria existência, já que sem eles seria impossível sentir em comum. Ninguém jamais soube explicar um sentimento em sua plenitude, mas todo mundo sabe que certas canções, certos artistas ajudam a gente a festejar, a amar, a sofrer, a sentir saudade, e principalmente a estimular e reconhecer esses sentimentos nas outras pessoas. É aquela coisa do “toca Bethânia, mostra que tu é intenso”.

Do conjunto das grandes composições, podemos pinçar aquelas que se aplicam a mais de um momento, temática ou sentimento. São como que canções-curinga, que a gente canta em diversos momentos da vida, com finalidades diversas e mutáveis.

Baby, para mim, é uma dessas canções-curinga. Confesso (sou inexplicavelmente desatento ao sentido de algumas letras que sei cantar de cor desde que me entendo por gente) que já amei tocando mal Baby, já ninei meus filhos tocando mal Baby e, atualmente, depois que descobri que Baby foi uma música que Caetano fez para a irmã, passei a tocar mal Baby para mitigar um pouco a saudade de minha irmã, que achou de viver na Austrália e em janeiro vai ter um baby. É, baby, há quanto tempo.

Mas, retomando: como será viver em um mundo sem a presença desse pessoal que já viveu tudo e nos deu régua e compasso para sentir? E, mais aflitivo ainda: o que será das pessoas da minha idade daqui a 40 e poucos anos, quando esta minha geração e as mais novas equivaler à desses grandes artistas que já não se fabrica mais?

Amigos já me alertaram quanto à possibilidade de estar mitificando excessivamente a geração de meus ídolos, e espero que eles estejam certos. Talvez os ídolos das próximas gerações já estejam aí brilhando, tocando, escrevendo, mas a verdade é que não dá para saber, ninguém pode prever o que – e, pior, se algo – do que está rolando hoje irá sobreviver.

Parece, enfim, que o único caminho de salvação para o futuro é todos nós, gente de hoje, que tenhamos um fio de veleidade artística, decidirmos simplesmente correr o risco da expressão – na música, nas artes, na literatura. E o tempo que se encarregue de peneirar de tudo isso o que for universal para quem vier.

Talvez a grande canção do futuro, a grande arte, predestinada a não perecer, seja alguma tentativa decaída de imitação barata de algo que lembre assim uma espécie de Baby mal tocada no violão.