Escrita Secreta

Por Ricardo Sangiovanni


Dois Brasis? Ninguém aguenta

Esse pessoal só pode estar de brincadeira. O Brasil já é difícil de aguentar sendo um só, que dirá sendo dois. Da esquerda à direita, do Oiapoque ao Chuí, eu convoco, eu suplico, eu clamo: vamos parar com essa maluquice de inventar dois Brasis.

E se não podemos esperar que tenha sobrado algum juízo aos lunáticos que realizam por aí a Micareta do Jair – o maior carnaval fora de época do país, parando estradas, surfando em para-brisas, acampando em portas de quartéis, celebrando notícias falsas como gols e até mesmo cantando o hino nacional com bracinho nazista – , resta chamar à razão os amigos da recém-ampliada, vitaminada e revigorada esquerda.

Pois bem: feitas todas as odes e justas homenagens ao nosso amado Nordeste, e sem pretender contrariar nenhuma delas, há também que se dizer: tava fácil votar em Lula por aqui, olhando para o lado e se sentindo acolhido por 60, 70, 80 por cento das pessoas.

Difícil mesmo deve ter sido votar em Lula em Roraima ou no Acre, em Santa Catarina ou em Goiás, onde se sabia ser não apenas minoria, como estar sob o olhar vigilante de uma maioria que reunia, potencialmente, muito mais gente insana, intolerante, agressiva e armada. Não deve ter sido complicado continuar bolsonarista por inércia, como fez o grupo de controle que monitoro aqui na burguesia baiana; duro deve ter sido fazer como o pai do meu amigo, que mora em Florianópolis e, tendo votado no Bozo em 2018, fez campanha para Lula neste ano.

Então, por que embarcar nesse discurso preguiçoso de que “o Nordeste salvou o Brasil”, resultado talvez da imitação barata da cobertura das eleições nos Estados Unidos, onde, ali sim, o vencedor de um Estado anula os votos do vencido? Se aqui cada cabeça vale um voto, não há razão para, a pretexto de exaltar em vermelho os 93,86% de eleitores de Lula em Guaribas, no Piauí, cobrir de azul no mapa a coragem dos parcos 4% de não bolsonaristas da diminuta Nova Pádua, no Rio Grande do Sul. Não há porque atribuir a vitória mais a nós, os 70,73% de eleitores de Lula na grande e capitalina Salvador, e menos àquela moça corajosa que deu entrevista a Caco Barcelos e Chico Bahia denunciando a escandalosa compra de votos na pequena e interiorana Coronel Sapucaia, no Mato Grosso do Sul.

Numa eleição definida por diferença de 2.139.645 de votos num universo de mais de 156 milhões, não convém tratar um só voto como mais decisivo do que outro. Ao menos se quisermos fazer valer a frase do presidente eleito de que “não existem dois Brasis” – frase que, se por um lado repele tal divisão, por outro lado a cogita. E é aí que mora o perigo.

Atribuir ao Nordeste o ‘não passarão’ imposto ao avanço do fascismo – e não ‘dos fascistas’, reforco, para deixar aberta a possibilidade de desembarque aos eleitores de Jair que recusam o nefasto rótulo – só atrai mau olhado para nós. E reforça falsas crenças. Nos nordestófilos, nordestinos ou não, a crença em algum tipo de superioridade moral ou comportamental, talvez em função da água que se bebe ou do ar que se respira na região. Nos nordestófobos, gente aliás muito perigosa, a ilusão de que o Nordeste encerra um povo atrasado, ignorante e subnutrido, que não trabalha, que vota em troca de um prato de comida. Claro que é interessante tentar compreender as razões sociais, econômicas, históricas e comportamentais da maciça votação de Lula no Nordeste; mas não há que se pretender encontrar nisso uma explicação última.

Mais importante agora é estender a mão aos companheiros lulistas, democratas ou simplesmente antifascistas do Norte e do Sul, do Centro-Oeste e do Sudeste – afinal, a luta por democracia continua e eles estão em minoria, e nós gostamos de defender as minorias. Inclusive porque eles, se não encontrarem lugar no discurso dos vencedores, terão imediato acolhimento caso resolvam desistir da luta e adernar à direita. Recusar interpretações xenofóbicas não só da eleição, como do país, pode até mesmo colaborar com uma desejável reabilitação da direita democrática, favorecendo o trabalho deles de varrer de novo para debaixo do tapete o extremismo que a substituiu.

Enfim, é como diz a velha máxima: quem quer dividir pretende dominar. Não há dois Brasis porque, no fundo, não há sequer um. Nações são invenções, “comunidades imaginadas”, e acreditar demasiado nelas, ao ponto de torná-las reais a partir de países, regiões, estados, cidades, povos, clãs ou famílias é sinal de imaturidade, pouca inteligência ou, como estamos vendo, insanidade. Se algum Brasil existir, ele é um só, e ainda por cima é engodo e estorvo, porque resultante de um grande e perverso projeto elitista de dominação e exploração dos seres humanos nascidos em todas, todas as partes de seu território. Um projeto cheio de vícios de origem e que, sendo impossível subverter pacificamente, a gente resolveu disputar no voto, para poder ir reformando, remendando, resistindo sob um mínimo de democracia.

Até o dia, distante ainda umas 20 ou 30 gerações, em que assistiremos da praia, já todos almas encantadas, à quimérica, à quixotesca chegada de barcas e mais barcas, cheias de gente alegre, livre, diversa e verdadeiramente revolucionária, que vão entrar pela Bahia de Todos os Santos e então aportar, e saltar e dizer, sem dar tiro nenhum, que isso aqui é tudo nosso, é tudo do povo, pelo povo, para o povo, com pleno respeito aos direitos de cada cidadão. E todo mundo irá brincar e festar, e aplaudir olhando para o mar, do jeito que hoje em dia o pessoal aplaude o pôr-do-sol.