Escrita Secreta

Por Ricardo Sangiovanni


O Museu do Bolsonarismo

Existe na Alemanha um museu dedicado a conservar e exibir os documentos do período nazista. Na África do Sul, um museu ajuda as pessoas a lembrar e entender o que foi o apartheid. Nos Estados Unidos, um enorme museu conta a história da escravidão dos povos africanos.

É comum, em nações que se preocupam minimamente em acenar a valores democráticos, construir museus para que o mundo não esqueça os grandes perrengues, ameaças, tristezas e tragédias que seus povos já tiveram que superar na história. Pois bem: agora que o Brasil elegeu um presidente de quem se pode democraticamente esperar e, sempre que necessário, cobrar alguma coisa, vou deixar aqui registrado este singelo pedido: presidente Lula, tão logo o senhor assuma, mande fazer um Museu do Bolsonarismo.

A primeira sala pode começar relembrando os primórdios. De um lado, vídeos aleatórios de absurdos do Bolsonaro: os escrachos no CQC, as bravatas de que a ditadura deveria ter matado 30 mil, o destrato ameaçador à colega deputada, a menção ao “quilombola de 7 arrobas” e afins. Do outro lado, os panelaços e os protestos contra o preço da passagem, contra a Copa, contra deus e o mundo, a turma achando massa brincar de “o gigante acordou”, e aquele rapaz Aécio Neves contestando a eleição, enquanto um povo doido de verde-amarelo pedia intervenção militar impunemente. E a lava-jato comendo solta. Pixuleco. “Tudo culpa do PT”.

Na sala seguinte, pula ali para 2017, 2018. Antes, breve passagem pela sessão do impeachment na Câmara, onde o visitante pode ouvir Bolsonaro exaltando Ustra, “o terror de Dilma Roussef”, e recordar a cusparada de Jean Wyllys. Um mural de fotos mostrará o Bozo sendo carregado Brasil a fora por lunáticos que o apelidam de “mito”. O Bozo batendo continência para a bandeira americana. Bananinha fritando hamburger. Bananinha com Steve Bannon. Bananinha ameaçando fechar o Supremo Tribunal Federal (aqui pode ter dois bonecões tamanho real, um soldado e um cabo, e um jipe de verdade, onde crianças poderão inclusive subir, dando uma dimensão da audácia do Zero Três).

A próxima sala já pode ser a da Eleição de 2018. Ela toda simulando uma UTI, com um boneco de cera do Bozo numa cama hospitalar, com a bolsa de colostomia e tudo mais. Na parede, um vídeo exibe em looping a facada em Juiz de Fora, e uma redoma de vidro ao centro abriga a faca suja de Adélio Bispo, só para impressionar. Numa salinha anexa, se vê Lula fraudulentamente preso, Alckmin abandonado, Ciro viajando para Paris e Haddad segurando uma bucha de mais de 10 milhões de votos atrás. Em telas interativas ao toque, os memes, vídeos, notas, manifestos, abaixo-assinados e todos os alertas que não fizeram cosquinha sequer na sanha reacionária que elegeu o tinhoso. Fecha com a fala de Magno Malta.

Governo eleito, a próxima sala pode reconstituir o ápice, numa aposta realista: réplica do Rolls Royce presidencial, bonecão do Bozo acenando e outro de Carluxo sentado na tampa do carro. Imprensa rudemente tratada. O cercadinho. Michele discursando em libras. Mourão e sua digníssima de azul subindo a rampa. Vampirão passando a faixa, e o povo das esquerdas assistindo pela televisão, entre pasmo e deprimido.

Depois vem a sala do ministério. Um inimigo do meio ambiente para cuidar do meio ambiente. Uma inimiga do feminismo para cuidar das mulheres. Um juiz parcial para cuidar da justiça. Um vigarista do mercado financeiro para cuidar da economia. Vários inimigos do conhecimento para cuidar da educação. E militares, militares por toda parte. A sala toda pode ser uma reconstituição daquela reunião ministerial revelada pelo Supremo, a que o visitante poderá ouvir na íntegra, em cinco idiomas, usando o foninho do audioguia.

Faltou falar que um ministro médico foi escolhido para a saúde, mas obviamente não durou. Assunto propositalmente guardado para a sala seguinte, a da pandemia, onde o visitante se depara com uma gigantesca estátua de um Bolsonaro sorridente oferecendo cloroquina a uma ema. Em uma câmara escura e fria, o visitante ouvirá vozes: “E daí, não sou coveiro!”, “É só uma gripezinha”, “Ai, estou com covid”, com flashes de 690 mil cruzes projetadas no chão, no teto, nas paredes. Uma linha do tempo mostrará os ministros da saúde, exaltando o general Pazuello, que agradou tanto ao chefe na gestão da crise do oxigênio em Manaus que foi agraciado no Rio de Janeiro com um caminhão de votos para deputado. E na sala da CPI, os melhores momentos narrados pelo Galvão do Marcelo Adnet. “Um rrrreal por dose. Pode isso, Arnaldo?”

Daí em diante, salas diversas podem abordar os principais escândalos conhecidos até o momento. A morte de Bebbiano. A morte de Adriano. A proteção a Daniel Silveira. O porteiro do condomínio Vivendas da Barra. As rachadinhas e a loja da Kopenhagen. Val do Açaí. O cheque de Queiroz na conta de Michelle. Queiroz escondido. Queiroz encontrado, encostado num colchão azul. De repente, se der para descolar um patrocínio compulsório da Havan ou do Madero via Lei Rouanet, podia botar até um holograma do advogado Frederick Wassef sendo perseguido por um repórter, jurando que estava ali de passagem e nada tinha a ver com a família Bolsonaro (o visitante faz o papel do repórter, para dar uma adrenalina). Corta para um vídeo do advogado Frederick Wassef transitando livremente no Palácio no Planalto, meses depois. Mas quem se importava? É que tanto absurdo junto tornou o absurdo banalidade.

Alguns relacionamentos merecerão certamente salas específicas. Sergio Moro, o vassalo. Alexandre de Morais, o algoz. Augusto Aras, a rainha. Joyce Hasselman, a renegada. Olavo de Carvalho, guru intelectual. Silas Malafaia, guru espiritual. Não deverão ser esquecidas evidentemente as cavalgadas, as motociatas, os Setes de Setembro, os discursos de ódio, os fogos contra o Supremo, os tantos desafetos deixados pelo caminho, vivos ou mortos. Gente que o amava passou a detestá-lo, e “tchuchuca do centrão” virou seu apelido em projeções em Nova Iorque. E o dito centrão, que ele antes renegava, tornou-se sua tábua de salvação, cobrando-lhe em troca um cheque de R$ 45 bilhões vergonhosamente inscrito no orçamento federal. Sim, é difícil ilustrar essas coisas em um projeto expográfico, mas nada será impossível para historiadores, jornalistas, sociólogos e museólogos criativos, a quem aliás faltou trabalho em tempos de tanto ódio à cultura e ao conhecimento.

O percurso se encerra na eleição de 2022, com emoção e loucura. Aqui eu sugiro um clipe de cortes rápidos e musica ligeira. Um petista é alvejado na festa de aniversário. Bolsonaro agride Vera no debate. Aí aparece um padre falso. Outro petista é morto. Um frame do símbolo da maçonaria. Roberto Jefferson descompensa e mete bala na Polícia Federal. Pacto com demônio, um frame. Mais um petista executado. O padre falso desarma Bob. Zambelli destambelha e mete uma pistola na cara de um sujeito. E, num último gesto desesperado, fundamentalistas infiltrados na Polícia Rodoviária resolvem fiscalizar extintor no dia da eleição – afinal de contas, se não rolar o golpe, pelo menos deram aquela sacaneada básica na vida do povo.

Diante dos bloqueios de estradas em resposta à derrota nas urnas, é prudente deixarmos em aberto a possibilidade de uma sala para, eventualmente, contar a história de alguma tentativa de levante trumpista por lunáticos e fanáticos. Se formos poupados de novas maluquices, o museu podia terminar com uma sala vazia, branca de cegar, absolutamente silenciosa, ilustrando a originalíssima reação do primeiro presidente brasileiro a não conseguir a reeleição – e o ostracismo ao qual haverá de ser rapidamente relegado pelas víboras e lacaios de que se cercou para governar.

O museu não sepultará o bolsonarismo, é verdade. Mas deixará registrada a enorme erosão que ele provocou em nossa frágil democracia. E em tempos de pós-verdade, ninguém vai poder dizer que o fantasma do fascismo jamais pairou sobre o Brasil.